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UísqueBar – Capítulo 1 (Novela, Ebook, Livro Digital Online, Grátis)

UísqueBar : Novela : Capítulo 1 : Ebook : Livro Digital : Online : Grátis


CAPÍTULO I

O mais chato, quando acontece uma coisa vergonhosa com a gente, é depois não poder contar a história pra ninguém. Ninguém nunca entende as coisas que são importantes pra gente. E infelizmente as coisas vergonhosas são sempre as mais importantes. Esse é o tipo do negócio que faz eu me sentir sozinho. Posso estar rodeado de um bando de idiotas que ficam rindo de qualquer asneira, que mesmo assim me sinto sozinho. É por isso que resolvi falar dessa vez que fui num puteiro com meus amigos. Se não fosse por isso, jamais abria a boca (a história é bastante ridícula pra um cara que já tem dezessete anos). Mas é uma coisa que todo mundo da minha idade devia saber. Só pra depois não ficar se sentindo tão sozinho por aí.

Era uma sexta-feira no final de janeiro. Eu tava no ônibus indo à praia de Salinas, passar o fim-de-semana na casa do Chico, um amigo meu. Poucos dias antes, eu tinha rodado no vestibular. Me senti um incompetente, embora lá no fundo eu nem quisesse passar. É porque eu não tenho a mínima idéia do que vou ser na porra da minha vida. Talvez tenha sido um erro mentir que eu queria ser médico. Obviamente, fez todo mundo esperar isso de mim. Se tivesse ficado quieto, talvez não fosse escutar meu pai me chamando de vagabundo. É o tipo da coisa que me dá vontade de fugir de casa.

O sol começava a desaparecer atrás das dunas do outro lado da estrada, quando o ônibus me largou em Salinas. Salinas é o nome do fim de mundo onde eu passava o verão até dois anos atrás, antes de meus pais comprarem casa numa outra praia cheia de metidos a ricaços e garotas que nunca olham pra nossa cara. Salinas. Nunca soube direito por que batizaram o pobre do lugar com um nome tão ridículo. Sei que as salinas são umas montanhas de sal que os homens tiram do mar e empilham na beira da praia pra depois vender, mas juro que lá eu nunca vi nada disso. O que existe são os cômoros de areia, que separam a beira da praia das ruas de pedra como uma grande muralha. Mas aí os únicos exploradores são os moleques que se escondem lá pras sacanagens.

A casa do Chico fica perto da beira do mar. Encontrei ele na garagem dos fundos. Continuava igual, magro feito um faquir, com aquele calombo no lugar do peito. As pessoas normais costumam ter o peito dividido em duas partes, mas o Chico não. O peito do cara é um só montinho de ossos saltados pra frente. Ele diz que tem “peito de pombo”. De fato, aquilo faz ele parecer mesmo uma pomba. Mas acho que ele só quer dar um nome todo especial praquela coisa tão horrível.

- E aí? – ele veio apertar minha mão.

- E aí.

- Larga tuas coisas aí no chão. Só preciso terminar uns troços aqui – e voltou à mesa da garagem. Ele tava mexendo num monte de caniços e molinetes e toda essa parafernália de pescaria. O pai dele tem uma loja de pesca lá pros lados da plataforma, e o Chico acorda todos os dias bem cedo pra trabalhar com ele, catar aquelas minhocas do mar e toda essa porcaria de pescador. Haja saco.

- Como é que vai a vida? – ele deixou os caniços, pegou um punhado de minhocas de um monte sobre o jornal e meteu elas dentro de um saquinho.

- Tudo tranquilo – sentei numa cadeira, no canto da garagem. Ainda não tava me sentindo muito à vontade. Confesso que não sou o cara mais extrovertido do mundo.

- Fez vestibular?

- Pra medicina. – E fui logo dizendo, antes que ele perguntasse: - Mas não passei.

- Eu fiz pra administração, mas também rodei. Eu fiz por fazer. Não estudei nada.

Claro que não. É o que todo mundo diz.

- E aí? – ele perguntou. – Muita festa?

- É. Bastante.

- Cara, Salinas ficou muito melhor depois que você foi embora.

Esse é o tipo da coisa chata de se ouvir. Tudo sempre é muito melhor quando a gente não tá por perto.

- Nem imagina as coisas que aconteceram por aqui. Sabe o Marquinhos?

- Sei – respondi. – O Marquinhos é um cara mais novo que a gente. Hoje tem uns quinze anos, mas ainda era moleque na última vez que eu tinha visto ele.

- Perdeu o cabaço! – e o Chico deu uma gargalhada, coçando os olhos com o braço, pra não lambuzar a cara de minhocas. – Até ele!

Sinceramente, esse não é o tipo da coisa que me dá vontade de rir. Pra falar a verdade, acho até um pouco nojento esse negócio de dar risada porque uma criança perdeu a virgindade.

- Tá brincando? – falei, como se tivesse adorado a notícia.

Ficamos em silêncio. Eu queria retomar o assunto, perguntar como tinha sido a história, mas alguma preguiça muito forte me impedia de dizer qualquer coisa. Só tinha vontade de ficar quieto e olhar o Chico ensacando as suas minhocas nojentas. De repente, sei lá por que, me bateu um tédio violento. Quase me arrependi de ter viajado. Aquele negócio do vestibular não saía da minha cabeça.

- Bah! – Fez o Chico, e meteu o resto das minhocas num saco de supermercado. – Depois eu termino esta merda.

Pegou um cordão e amarrou o saco plástico. Deu um daqueles nós idiotas que só os pescadores conhecem. Nem precisava tanto, mas deu.

- Continua trabalhando com teu pai? – perguntei, enquanto ele guardava o saco na geladeira da garagem.

- O que você acha? – ele disse mostrando as mãos cheias de suco de minhoca.

- Ele nunca te dá uma folga?

- Folga? – disse ele, de costas. Lavava as mãos na pia da churrasqueira. – Aquele velho broxa? Nunca!

O Chico vive xingando o pai dele de tudo quanto é nome. O negócio até que é engraçado.

- Acho que eu ia vomitar se tivesse que trabalhar todo dia – eu disse. E é verdade.

- E você acha que eu morro de alegria por ter que acordar às seis da manhã? – disse o Chico.

- Não acho. Mas, de qualquer maneira, você acorda.

- Fazer o quê? Teu pai não é um velho pão-duro como o meu – ele arremessou a toalha sobre a pia. – Vamos dar um pulo até a beira da praia? O pessoal todo tá lá, jogando futebol.

Enquanto eu tirava os tênis, no quarto do Chico, minhas mãos tremiam. Tava um pouco nervoso com a perspectiva de reencontrar todo mundo.

Foi aí que o Chico selou o destino do nosso final de semana:

- Tive uma idéia pra hoje à noite.

- Qual? – sei lá por que, eu meio que já sabia a resposta. Mas preferi perguntar assim mesmo.

- Nós vamos num puteiro.

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[...] publicados os livros A Barata de Toga (Contos) e UísqueBar (Novela), além de contos em diversas antologias [...]


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