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UísqueBar – Capítulo 2 (Novela, Ebook, Livro Digital Online, Grátis)
novembro 8, 2009 às 2:55 pm · Arquivado em ebook, grátis, livro digital, novela and tagged: ebook, grátis, livro digital, novela, online
UísqueBar : Novela : Capítulo 2 : Ebook : Livro Digital : Online : Grátis
CAPÍTULO II
A beira da praia tava escurecendo quando chegamos lá. De longe só dava pra enxergar, contra o mar cinzento, uns vultos correndo no campo de futebol. O Edinho, um amigo de infância, tava sentado no cômoro de areia, assistindo ao jogo. Tava com os cabelos compridos até a nuca.
- E aí, Dedécio? – disse ele. O Edinho é gago pra caralho. A gente se diverte com isso. – Pensei que tivesse momorrido. Nunca mais apareceu.
- É – disse o Chico – esses sacanas filhos da puta. – E jogou um punhado de areia nas costas do Edinho.
- Vai te fofoder, Chico! – o Edinho deu um soco no ar e depois limpou as costas com a mão. Ele se faz de invocado porque na verdade é um baita cagão. Uma vez ganhou uma prancha de aniversário – marca diabo, mas ganhou – só porque todo mundo surfava, mas nunca passou daquela marola onde as crianças ficam mijando. Quando via o pessoal entrando no mar, mergulhando por baixo das ondas e tal, fazia uma cara de pavor, pegava a ondinha mais mixuruca de todo o oceano e caía fora.
- Não vai jogar, vagabundo? – perguntou o Chico. Ele vive chamando todo mundo de vagabundo só pra lembrar que trabalha com o pai.
- Não poposso – disse o Edinho. – Torci o pepé.
- Ah, mas que bichinha!
Eles vivem de galinhagem, principalmente na frente das gurias. Sinceramente, tenho minhas reservas quanto a esse tipo de comportamento. É o tipo da coisa que os feios fazem quando querem aparecer.
Ficamos ali assistindo ao jogo. Não sei como pude passar a infância plantado naquele campo de futebol. Mas a verdade é que eu tava me sentindo meio mal, porque tinha reencontrado meus amigos depois de tanto tempo e mesmo assim não tinha assunto nenhum pra conversar com eles.
- E esse cabelo, Edinho? – foi a melhor coisa que arranjei. Não tava muito a fim de falar sobre o vestibular.
- Pois é. Totou deixando crescer – ele puxou aquela vassoura pra trás com as duas mãos.
- Tá ficando legal – eu disse. E o pior é que tava mesmo. – Também tô deixando o meu crescer.
Mas aí ele não disse droga nenhuma. Reconheço que meu cabelo não fica tão legal quando deixo crescer. Fico parecendo um mendigo ou um homem das cavernas.
Duas silhuetas caminhavam de um lado pro outro, lá na frente, com as canelas mergulhadas na água do mar. Pareciam duas gurias. Aí eu me empolguei. Sempre me dei bem com as gurias de Salinas. Em Porto Alegre a coisa era mais difícil, por causa da concorrência do colégio, mas em Salinas eu costumava ser a sensação. Tá, grande merda, mas é verdade. Tinha a Pâmela, que chorou quando eu pedi outra em namoro. Foi numa daquelas reuniões dançantes de garagem, onde, ao invés de sair agarrando metade da festa, a gente tirava as meninas pra dançar e ficava num canto tomando refrigerante e fazendo pose de galã. Uma vez, eu tinha uns dez anos, a mãe dela me convidou pra passar o feriado na praia com elas. O meu pai não gostou muito da ideia e disse pra eu inventar uma desculpa, porque a mãe dela era meio pirada da cabeça e podia nos botar a tomar banho juntos, ou pra dormir na mesma cama. “Imagina se você acorda com o tico em pé”, ele riu. Às vezes os adultos também conseguem ser delicados. Fiquei uns três meses morrendo de vergonha.
- Quem são? – perguntei ao Edinho, apontando as duas lá na frente.
- Lelembra a Bruna?
Forcei a vista. Reconheci o jeito de andar, de segurar os chinelos na mão e balançá-los pra frente e pra trás. Namorei a Bruna há dois anos, antes de sumir de Salinas. Ela é dois anos mais velha que eu. Bem, não foi exatamente um namoro, só ficamos algumas vezes, durante duas semanas. Mas aí enchi o saco e caí fora. Eu sou assim mesmo. Faço de tudo pra pegar a melhor guria da área e, quando ela fica doida por mim, logo encho o saco e pulo fora.
- Ela continua boa? – perguntei.
- Tá memelhor.
Encontrei uma concha e fiquei riscando a areia com ela. Não queria me mostrar muito interessado nem nada.
- Fiquei meio mal quando terminei com ela – eu disse. – A Bruna é uma guria legal, não queria chutar ela como se não tivesse nem aí pra ela.
O Edinho ficou quieto. Tava muito ocupado olhando a droga do jogo.
- É que a Bruna queria coisa mais séria – eu disse. Cara, eu tava mesmo com vontade de falar sobre aquilo. - Eu tinha só quinze anos, não tava preparado pra namorar. Hoje a coisa seria diferente.
O Edinho continuava quieto. Eu podia pegar a droga da trave da goleira e dar na cabeça dele, que mesmo assim não ia abrir a boca. O fato é que ele é meio recalcado pra esse tipo de coisa. Quando éramos pequenos, combinamos que cada um da turma teria que pedir uma guria mais velha em namoro. Eu não vi nada, mas fiquei sabendo que a escolhida do Edinho mandou ele se enxergar porque ele era um pirralho e tal. Também, a guria tinha idade pra ser mãe dele. Só sei que no outro dia o Edinho nem deu as caras e que, segundo o pessoal, ele passou a noite toda trancado no banheiro chorando. Pra ser honesto, eu adorei aquela história. Não sou um sacana filho da mãe nem nada, mas adorei. Todo mundo adora.
De qualquer maneira, desisti de conversar com o Edinho e fiquei olhando a Bruna. Ali estava uma boa pedida pra noite. Podia deixar o Chico e os outros irem ao famoso puteiro, enquanto eu ficava com ela. Alguns caras têm que pagar, mas eu definitivamente não sou um deles. Aliás, prefiro estar com uma só garota ao invés de um bando delas. Bem esperto o sujeito que disse que quem anda com todas não tem nenhuma. A gente precisa mesmo é de uma guria que converse, escute e entenda a gente, e não de um monte de prostitutas tagarelando como se nossos ouvidos fossem privada ou coisa parecida.
Mas de repente o Edinho disse bem sério, sem olhar pra mim, enquanto arrancava um pedaço de pele debaixo do pé:
- Quem tá mamandando brasa na Bruna é o Peres.
- Aquele sortudo fiádaputa – disse o Chico do outro lado. – Ei, Peres! – gritou pra dentro do campo. – Você é um sortudo filho de uma puta, sabia disso?
O tal do Peres não disse nada. Nem parou de correr. Só riu e respondeu com um gesto obsceno. Eram uns verdadeiros gentlemen.
O Edinho continuou mexendo na sua bolha estourada. Que raiva que me deu. Esse é o tipo da coisa que deixa puto em Salinas. Os caras dizem umas coisas delicadas pra caralho enquanto mexem nas porras dos seus pés nojentos.
- Como assim, mandando brasa? – eu perguntei. É o tipo da coisa que não dá pra segurar.
- Mamandando brasa, ora – disse o Edinho. Continuava sem olhar pra mim. Cara, que ódio.
- Eles tão namorando? – perguntei.
- Sei lá se eles tão namorando – respondeu cheio de má vontade. – Só sei que o Peperes vai na casa dela todas as noites.
- Tá, mas você acha que eles… – e não completei.
- Sei lalá se eles… – fez o Edinho. Tava curtindo com a minha cara, o desgraçado. – Pergunta pra eles, se quer saber.
- Já tô perguntando – eu ri. Tava sem a mínima vontade de rir, mas ri assim mesmo.
Porra, tava mesmo um saco assistir àqueles caras berrando e dando suas almas por uma partida medíocre como aquela. Fiquei olhando o tal do Peres correndo feito um touro pra tudo quanto era lado. Não jogava lá grandes coisas, mas corria feito um animal. O puxa-saco do Chico não parava de dizer que ele tinha raça. E ainda chamava ele de sortudo, porque pegava a guria que eu tinha mandado passear. Ninguém nunca reconhece o mérito da gente.
Resolvi dar um pulo até a água. Tava ventando pra caralho, e a areia que vinha dos lados de Cidreira era como um tiro de sal nas canelas da gente (nunca levei tiro de sal, mas ouvi meu pai dizendo isso uma vez e meio que acabei pensando a mesma coisa). Tratei de ficar bem afastado daquelas duas gurias, não tava nem um pouco a fim de cumprimentá-las com um sorriso forçado. Lá longe, do outro lado da praia, as luzes da plataforma já estavam acesas. Deve dar uma solidão do diabo pescar no meio do oceano à noite. A não ser que a gente saiba que depois vai voltar pra casa e encontrar a mulher com o jantar pronto e tudo mais. É como os caras que namoram: tão sempre querendo ficar sozinhos, mas só porque têm uma guria esperando por eles. Se não tivessem, se matariam no primeiro minuto.
Quando finalmente terminou a pelada, nos reunimos ao lado da casinha dos salva-vidas. A Bruna e a amiga tinham ido embora, mas o Peres continuava lá. No começo fiquei meio sem jeito, porque já tinha agarrado a namorada dele e tal, mas ele parecia não estar nem aí, embora tenha quebrado todos os dedos da minha mão quando me cumprimentou.
- Ei, galera – disse o Chico – eu e o Décio vamos no puteiro hoje. Alguém topa?
Maravilha. Agora a praia inteira sabia que a gente ia no puteiro.
- Qual puteiro? – perguntou o Peres. Ele tava brincando com uma bolinha de tênis. Ficava jogando aquela merda contra a casinha de salva-vidas só pra contrair os músculos do braço, o exibido. O cara é uns dois anos mais velho que a gente e é forte pra caralho, embora feio de doer. É que o animal tem músculo até na cara.
- No Serei da Noite – disse o Chico com a maior naturalidade. – Vamos nessa?
- Não posso – o Peres forçou uma cara de decepção. – Vou na casa da Bruna.
- Inventa uma história – disse o Chico. – Diz que vai visitar uma vó que trabalha no Sereia.
O Peres ficou quieto um tempo. Sei lá por que, mas de certa forma eu queria que ele fosse com a gente. Mesmo ele sendo um feioso metido a fortão e tal.
- Não dá, Chico.
- Ah, safadão! – o Chico deu um soco no braço do Peres. Ele vive dando soquinhos em todo mundo. – Só porque a tia da Bruna não tá em casa. Pensa que eu não sei, taradão?
O Peres riu e ficou todo sem jeito. Era até estranho ver um brutamontes daquele tipo ficar sem jeito. Sinceramente, eu preferia que ele fosse um grosseirão da pior espécie, que não tivesse sensibilidade nem no rabo, mas pelo jeito não era bem assim. Ninguém nunca é como a gente imagina.
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